
Angola no epicentro de uma nova geoestratégia energética
Angola está a dar passos sólidos para afirmar a sua soberania energética, não apenas como um grande produtor de petróleo bruto, mas como um actor com capacidade de transformação local e visão estratégica sobre o futuro.
Dois acontecimentos recentes projectam o país para um novo patamar: a inauguração oficial da Refinaria de Cabinda (há duas semanas) e o anúncio de um novo ciclo de investimentos da Azule Energy.
A Refinaria de Cabinda: soberania em acção
Durante décadas, Angola exportou crude e importou combustíveis refinados, desperdiçando valor e alimentando dependências externas. A Refinaria de Cabinda inverte esse ciclo.
Com uma capacidade inicial de 30 mil barris por dia, e previsão de duplicar em fases seguintes, este projecto representa mais do que uma infraestrutura industrial: é um marco de independência operacional e estratégica.
Destaque para o modelo de parceria com a Gemcorp (90%) e a Sonangol (10%), onde o controlo sobre os derivados produzidos é garantido pelo Estado angolano através de um mecanismo de “taxa de processamento”. Isto significa que Angola começa a ter palavra no que produz, distribui e consome.
Azule Energy: $5 mil milhões que impulsionam o futuro
A joint venture entre a BP e a Eni, conhecida como Azule Energy, anunciou um investimento de US$ 5 mil milhões em Angola nos próximos cinco anos.
Serão 18 novos poços perfurados, com foco no aumento da eficiência e da sustentabilidade, sob um novo enquadramento regulatório que visa garantir a produção sustentada acima de 1 milhão de barris por dia.
Este é um sinal claro de confiança no país e de alinhamento com uma política de abertura ao investimento privado sem perder o horizonte da soberania.
Gás natural: o novo trunfo estratégico
A descoberta do poço Gajajeira–01, com volume estimado em mais de 1 trilião de pés cúbicos de gás, coloca Angola no mapa da transição energética global.
Numa altura em que o mundo busca fontes energéticas mais limpas, o potencial angolano em gás natural pode tornar-se uma ponte entre o presente e o futuro.
A estratégia passa por:
– Aumentar a produção de gás em 20% nos próximos cinco anos;
– Exportar para mercados como Europa e Ásia;
– Desenvolver a indústria local e gerar empregos com valor acrescentado.
Soberania não é só produzir, é decidir
Angola tem agora a oportunidade de transformar recursos naturais em bem-estar colectivo. Mas soberania não se limita a extrair ou refinar: é preciso decidir o destino da riqueza gerada.
Isso implica:
– Transparência na gestão dos recursos;
– Capacitação institucional para acompanhar os projectos;
– Participação cidadã na fiscalização e definição de prioridades;
– Reinvestimento na diversificação económica e no capital humano.
Conclusão: entre o poder e a responsabilidade
Angola está perante uma encruzilhada histórica. Os investimentos anunciados e as obras inauguradas podem ser o alicerce de uma nova soberania energética ou a repetição de ciclos anteriores marcados por extracção sem transformação.
A diferença estará na capacidade de usar o poder com responsabilidade, guiada por uma visão de Estado e compromisso com o povo angolano.
A energia é um activo. A soberania é uma escolha.

