
Adiar raramente é neutro.
Na maioria das vezes, é uma decisão silenciosa, confortável no curto prazo e dispendiosa no longo.
Vivemos num tempo em que a intenção passou a ser quase tão valorizada quanto a ação. Diz-se “vou pensar”, “ainda não é o momento”, “preciso de mais dados”. Algumas dessas pausas são legítimas e necessárias. Outras, porém, funcionam como uma forma sofisticada de evitar a responsabilidade que toda decisão exige.
Decidir não é um ato impulsivo.
É um ato consciente de assumir consequências.
Quando não decidimos, algo acontece da mesma forma. O tempo decide por nós, o contexto impõe-se, outras pessoas ocupam o espaço que deixámos vazio. A omissão também produz resultados, apenas não são resultados escolhidos.
Há decisões que exigem preparação.
E há decisões que já tiveram tempo suficiente de análise e agora exigem coragem.
O problema, na maioria das vezes, não está na falta de capacidade ou de informação. Está na resistência em assumir o que a decisão exige depois de tomada. Porque decidir não termina no momento da escolha. Decidir inicia um processo que pede consistência, ajustes e responsabilidade contínua.
Assumir significa aceitar que nem todos irão concordar, que nem tudo correrá como planeado e que haverá correções, aprendizagem e amadurecimento ao longo do caminho. Mas assumir também significa ganhar direção. Significa sair da espera permanente e do adiamento disfarçado de prudência.
Muitas pessoas confundem responsabilidade com peso excessivo. Na verdade, responsabilidade bem assumida liberta. Ela retira a pessoa da dependência da validação externa e da ilusão de que o momento perfeito surgirá por si só. O momento perfeito raramente chega. O que chega é a consequência daquilo que foi ou não decidido.
Decidir é um marco de maturidade.
É o ponto em que deixamos de negociar com a própria consciência e começamos a responder pelas escolhas que fazemos ou evitamos.
No exercício da liderança, seja pessoal, profissional ou pública, este princípio é inegociável. Liderar não é apenas ocupar posições ou ter voz. Liderar é sustentar decisões quando o entusiasmo inicial passa e quando surgem as primeiras dificuldades. É permanecer responsável mesmo quando a decisão deixa de ser confortável.
Adiar pode parecer prudência em determinados momentos.
Mas quando o adiamento se transforma em padrão, revela medo de assumir.
Por isso, antes de procurar novas metas, projetos ou mudanças externas, vale uma pergunta simples e exigente: o que já sabes que precisas decidir e continuas a adiar?
Responder a essa pergunta com honestidade é, muitas vezes, o verdadeiro início da mudança.
Decidir é assumir.
E assumir é o que transforma intenção em direção.
Amélia Ernesto
