
Uma geração com fome é uma geração silenciada.
Em Angola, a fome deixou de ser apenas um problema económico para se tornar um obstáculo à cidadania plena. Quando milhões de pessoas lutam diariamente para garantir uma refeição, torna-se quase impossível exercer direitos cívicos, participar em processos democráticos ou exigir prestação de contas ao Estado. A fome cala, silencia e exclui.
Segundo o Relatório Global da Fome (SOFI 2025), mais de 27 milhões de angolanos — cerca de 71,4% da população — não têm acesso a uma dieta saudável. O Instituto Nacional de Estatística (INE) aponta que 8 em cada 10 famílias vivem actualmente em algum grau de insegurança alimentar, com quase 30% em situação severa. Estes números revelam não apenas um desafio alimentar, mas uma urgência política e social.
Mulheres e crianças continuam a ser as maiores vítimas deste quadro. Nas zonas rurais, a seca prolongada e a ausência de infraestruturas básicas agravam a vulnerabilidade. Nas cidades, o desemprego e o aumento do custo de vida empurram milhares para a informalidade ou para a subsistência em contentores de lixo.
A insegurança alimentar profunda mina o tecido social e cívico. Famílias fragilizadas não participam em assembleias, associações comunitárias ou processos eleitorais. A fome impõe uma lógica de sobrevivência imediata que substitui o sonho colectivo pela urgência individual.
O resultado é uma democracia fragilizada. O cidadão com fome não questiona políticas públicas nem participa em debates — ele procura sobreviver. Neste contexto, a exclusão alimentar traduz-se em exclusão política.
A resposta a este problema deve ser integrada e transformadora. Políticas públicas baseadas em participação comunitária são essenciais. Isso inclui:
– Programas de produção agrícola com enfoque local e sustentável;
– Infraestruturas hídricas nas províncias mais afetadas;
– Subsídios alimentares direcionados para agregados vulneráveis;
– Campanhas de educação nutricional e sanitária;
– Criação de conselhos comunitários de segurança alimentar, com voz activa na formulação de soluções.
Garantir comida na mesa não é apenas uma questão de compaixão — é uma exigência democrática.
Angola precisa de um novo pacto social onde o combate à fome seja visto como uma prioridade de Estado, condição fundamental para que cada cidadão possa exercer plenamente os seus direitos.
Porque uma geração com fome é, de facto, uma geração silenciada.

